+++
kind = 'micro'
status = 'Published'
title = "Ditadura da burguesia"
keywords = ['democracy', 'imperialism', 'parliamentarianism', 'dictatorship', 'capitalism']
dateCreated = 2026-05-17T20:40:00+02:00
lang = 'pt-PT'
license = "CC-BY-SA"

[[signers]]
entity = 'cravodeabril'
role = 'author'
+++

[comment]: <> "LTeX: language=pt-PT"

Há uns meses o Coletivo Ruptura referenciou [um texto][text] que penso entender
melhor o que era suposto ter tirado dele (embora talvez o deva ler outra vez).

[text]: <https://coletivoruptura.wordpress.com/2026/03/04/anti-imperialismo-de-via-reduzida-nao-vai-longe-2002/>

Parece ser complicado dizer que uma "ditadura/autocracia" é tipo uma
"democracia" e fácil mostrar e ver como estas democracias são uma ditadura — uma
ditadura de uma só classe.

Estudar a história política das correntes revolucionárias é estudar a influência
das ideologias vindas da práxis da época, o seu uso pela classe dominante e a
sua influência no resto das classes.

> Pois, como escrevem Marx e Engels, em <cite>A Ideologia Alemã</cite>, <q>as
> ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou
> seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo
> tempo, o seu poder espiritual dominante</q>.

No exemplo do Irão, petromonarquia, existe uma centralização e um capitalismo de
Estado fortalecida pela monarquia Pahlavi, pela revolução de 1979 e pelo
conflito com o Iraque nos anos posteriores, que criaram também a "identidade
nacional" iraniana. Esta centralização protegeu no final do séc. XIX da
influência do imperialismo britânico e russo, mas também os movimentos
separatistas de algumas minorias étnicas. A revolta de 1979 reorganizou a classe
dominante nesta burguesia clerical que arranjou a república com termos
religiosos. Existe polaridade de centros de poder: o <i>Wilāyat al-Faqīh</i>,
tutela do jurista, líder supremo, que garante o "governo islâmico" — com raízes
no debate político persa do séc. XVIII contra a legitimidade dos califados
sunitas, hoje, sobre o 12.º imã, cujo próprio representa, "manto do profeta" e
da "casa de Maomé" —; o gabinete do líder supremo; a guarda revolucionária; e o
governo civil. Mas tudo defende os interesses da burguesia iraniana — embora
existam conflitos entre frações dessa burguesia (e em todas as outras), e vê-se.

Porque é uma ditadura da burguesia.

> Mesmo num sistema autoritário, os líderes <q>não governam sozinhos</q>, mas
> sim em conjunto com uma pluralidade de centros de poder e de <q>redes de
> clientelismo elaboradas</q>. Esses sistemas são expressão das
> <q>circunstâncias históricas locais</q> e operam em <q>consonância</q> com
> elas.

Uma ditadura da burguesia, igual hás que temos na Europa democrática.

<q>O assassinato selvagem e infame</q> de Liebknecht e Luxemburgo desmascara a
democracia e o seu conteúdo imperialista. Não é possível <q>existir uma
democracia fora ou acima das classes, [...] que na sociedade atual, enquanto os
capitalistas conservarem a sua propriedade, a democracia possa ser algo
diferente da democracia burguesa, isto é, da ditadura da burguesia, dissimulada
sob falsas insígnias democráticas</q>.[^1]

[^1]: <https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1919/jan/20.htm>

Por isso é que Francisco Martins Rodrigues fala da <q>treta da <q>superioridade
democrática</q></q>. Na altura tenho a sensação que discordei com algumas partes
do texto, mas talvez porque entendi mal a mensagem. É óbvio que quando um Estado
ataca outro com a retórica de que defendem a democracia, é balela, o motivo é
outro. Até aí <i lang="en">okay</i>. Depois o que entendi é que ele era contra
tratar "democracia" e "ditadura" como opostos, <i lang="en">okay</i>, mas também
o falar mal do regime dos países "não democráticos estilo europeu",
<i lang="en">not okay</i>, mas como devia estar com sono e a ler na cama,
apanhei a mensagem por aí, incorretamente. Claro que ia discordar, tem muito que
criticar de qualquer regime burguês. Mas o que provavelmente ele queria
transmitir é que é nocivo apenas falar mal dessas configurações da ditadura da
burguesia, sem nunca falar mal das outras, incluindo a mais "democrática".
Porque o que depois acontece é que acabamos por dar legitimidade ao ataque pela
falsa defesa da suposta "democracia" que iria servir a mesma forma de domínio de
uma classe sobre a outra, e por isso nunca neutro, para não falar que esconde as
diferenças e lutas de classes. A crítica não deve ser à configuração da ditadura
da burguesia, mas à ditadura, à burguesia e à existência de classes, e aos
Estados, e agir de modo a preparasse para quando chegar o momento de ser
possível abolir a necessidade de dominação de classes — característica do
capitalismo[^2] — fazê-lo.

[^2]: Não só.
